Gottmik: Como um homem trans performando uma drag queen pode revolucionar nossas reflexões sobre os estereótipos de gênero.
Esse mês chegou na Netflix do Brasil a 13ª temporada de RuPaul’s Drag Race e, pela primeira vez na história do programa, temos uma drag queen performada por um homem trans: a Gottmik que, alerta spoilers, chegou à final da corrida e acabou em terceiro lugar.
O ineditismo da representação de Kade Gottlieb como Gottmik e sua passagem pelo programa trouxeram algumas reflexões urgentíssimas e revelam, em segundo plano, como RuPaul, a apresentadora, que no passado já teve falas consideradas transfóbicas, pôde aprender verdadeiramente com seu erro e fazer algo com isso.

O Reality Show, no ar desde 2009, é sem dúvida transgressor dos padrões heteronormativos na essência. Ao longo dos anos, o programa transformou a visibilidade da arte drag em um fenômeno mundial, onde as competidoras e competidores, majoritariamente homens cis gays, mostram suas habilidades da performance, dança, atuação, criação em suas drags. Mas, para além da performance, há um aprofundamento de questões sociais de suas existências, que trespassam pelas relações raciais, aceitação, liberdade, homofobia, apoio da comunidade/família e muitos outros aspectos que transformam o programa em uma importante ferramenta política.
Se homens cis gays interpretando personagens e caricaturas da feminilidade é uma girada da chave no cadeado que mantem os esteriótipos de gênero em caixas muito bem trancadas, um homem trans performando uma drag é a abertura de vez desse cadeado. Pessoas que não “pertencem” ao lugar de gênero dado ao nascimento precisam passar pela provação de serem “capazes” de estar na outra caixinha e essa provação passa pela necessidade de ter cada uma daquelas expressões permitidas para um ou outro gênero, só assim, e muitas vezes nem assim, sua existência é um pouco mais permitida.
É curioso como uma sociedade como a nossa, uma das mais transfóbicas do planeta, consegue, ao mesmo tempo, não permitir a nossa existência e ter um lugar pré-estabelecido para nós: você não pode ser mas se for tem que ser assim. E essa fórmula é equacionada de trejeitos, roupas, modos, a forma de falar, de andar, a orientação afetivo-sexual, atributos que não, não fazem parte do check list do que nos torna de um ou outro gênero ou nenhum. Mas é claro que uma sociedade limitadora e padronizadora tentará colocar em caixinhas até aquilo que regurgitou.
Eu sou um homem trans e hoje, entrando no sexto ano de minha transição, me vejo em uma situação muito mais cômoda e tranquila para aprofundar na reflexão da minha própria identidade do que há alguns anos, quando todo o fôlego que eu tinha era gasto diariamente para me defender das situações transfóbicas, para me manter no espaço que eu quero ocupar e lutar pelo básico que, individualmente, era o respeito pelo meu nome. Ver Kade Gottlieb performar a Gottmik foi um dos raros momentos que nós, pessoas trans, temos de sentir orgulho de uma representatividade tão potente e bonita e, nesse caso, pela primeira vez, eu senti que foi além do básico. O básico não é ruim, explicar conceitos, nome social, uso de banheiros é necessário, mas precisamos passar para a próxima fase. O beabá não pode ficar pra sempre porque temos muito mais o que discutir e falar, e a cisgeneridade precisa dar conta de entender a própria identidade sem a gente ter que apontar o caminho.
Kade, um homem trans, gay, afeminado, maquiador profissional e performer da drag Gottmik mostra que precisamos aprofundar as reflexões sobre identidades de gênero e que não faz sentido sair de uma caixa de estereótipos e cair em outra.
Há uma linha muito tênue entre o que é verdadeiramente nosso e o que é fruto de nossas socializações, aquilo que é internalizado ao longo de nossas vidas e é criação de nossa sociedade. Eu lembro muito bem no começo da minha transição, em um lugar completamente perdido, como eu achava que precisava aprender a ser homem e me agarrava nas noções de masculinidade que eu havia aprendido, cair em uma outra caixinha é uma forma de defesa para que ninguém nos conteste, eu sou assim e sigo todos esses atributos que pesam para que você acredite em mim. Pessoas trans foram socializadas com todos esses estereótipos de gênero também e sair disso é um processo árduo e contínuo. Hoje eu me questiono, mais do que nunca, até que ponto a disforia (sensação de desconforto com o corpo ou partes do corpo e outras questões que não sentimos que estão em consonância com nosso gênero) é causada por nossa socialização? Até que ponto eu não me sentia confortável com meu corpo porque é tão forte a noção que temos dos gêneros ligados a um peito, um genital, pelos, corte de cabelo, som da voz?
É urgente desconectarmos essas peças, cada uma dessas condições se fecha em si mesma e não precisa das outras para funcionar. Corpo|genital, identidade de gênero, orientação afetivo-sexual, expressão de gênero não fazem parte da mesma equação, uma não é resultado da outra e as possibilidades de existência são milhares, milhões. Limitar nossas existências a uma expectativa binária é restringir a infinidade de potências que somos: duas formas de ser não dá conta da diversidade humana, é cruel e violento demais submeter-nos a esses enquadramentos.
Gottmik me fez perceber que ser uma pessoa trans não é necessariamente estar no lugar de libertação total das amarras, eu ainda tenho muitas que nem vejo. Mas ser uma pessoa trans é ocupar um lugar de mudanças positivas para toda a sociedade, é um lugar de questionamentos e reflexões que precisam ser ouvidos. Como disse Kade: “a melhor forma de representar sua comunidade é apenas sendo você”. E isso pode ser a coisa mais revolucionária que podemos fazer.



