Há alguns anos venho trabalhando junto às empresas com a desconstrução do mito da meritocracia na tentativa de problematizar o conceito estanque de “meritocracia”, já que ela, no contexto corporativo brasileiro (e tantos outros contextos), é uma falácia.
Antes de entrarmos no mito propriamente dito, precisamos reler o conceito de meritocracia. Segundo o dicionário Houaiss, meritocracia significa o predomínio numa sociedade, organização, grupo, ocupação etc. daqueles que têm mais méritos (os mais trabalhadores, mais dedicados, mais bem dotados intelectualmente etc.). Portanto, podemos entender a meritocracia como um conjunto de habilidades intrínsecas a um indivíduo que despende um exímio esforço pessoal, sem que haja nenhuma relação desses “atributos” com o contexto no qual a pessoa está inserida. Ou seja, a meritocracia parte do pressuposto de que cada pessoa é a única responsável pelo seu lugar na sociedade, seu desempenho escolar e profissional etc. Acontece que a meritocracia é um silogismo erístico, que parte de uma premissa falsa para se chegar a uma conclusão igualmente falsa.
Trazendo para a conversa a comparação entre pessoas brancas e pessoas negras, sabemos que historicamente ambos os grupos ocuparam posições completamente distintas –escravizados e escravizadores-, tiveram diferentes observâncias jurídicas – Lei da Vadiagem e Lei de Terras-, e tantos outros exemplos de diferenciação de tratamento de ambos os grupos raciais desde 1500 até hoje.
Diante desses fatos, é impossível não considerarmos que pessoas brancas e negras iniciam suas jornadas pessoal, profissional e estudantil de pontos de partida completamente diferentes. Sem falar de todas as intercorrências encontradas no percurso de pessoas brancas (privilégio simbólico e material) e negras (barreiras impostas pelo racismo estrutural).
Dessa forma, considerar apenas o esforço e empenho pessoal de cada um e cada uma de nós, sem levar em conta o meio no qual nos inserimos, é perpetuar as desigualdades e aprofundar o abismo que separa brancos e negros. Por isso, convido os leitores e leitoras a revisitarem seus conceitos tão arraigados em termos de meritocracia e acrescentar a palavra mito, tratando, portanto, desse silogismo erístico como o mito da meritocracia.
